quinta-feira, 20 de abril de 2017

Cordel sem rima

Quando acordei da infância as coisas estavam ruins.
Brasil ganhou a copa, verdade.
Curiosa, li em jornais a morte de terroristas,
Descobri que o Brasil era uma democracia
que fazia eleições indiretas.
Aulas de Moral e Cívica,
Ato patriota cantando o hino nacional
(toda semana)
de uniforme. Mão no peito. Sem cochichos.
Aí as cores iniciaram a me transformar.
Rebeldia, sim, do jeito parco
Que moças de família não deveriam sentir.
Anos e tempos, e livros, faculdade,
Para entender e chorar de raiva.
Pixar muros, medo, cuidados muitos,
Nome de guerra... Que orgulho.
A vida seguindo e eu aprendendo.
Já não carecia mais de clandestinidade.
Palavras censuradas eram faladas.
comícios enormes, diretas frustradas,
planos mirabolantes, confiscos,
Volta à rua: Empurra o cara que ele cai.
Caiu. E agora? Ixi!
Feirão de patrimônio, arrocho, tevê faceira.
Mais anos passando e o dia nasceu feliz!
Agora sim, democracia.
Desde cedo ameaçada, incomodada.
Avanços sociais, justiça social pequeninha,
Suficiente para encher pratos - Fome, fora.
Marolas. Código florestal, prato servido
para aplacar latifundiários e pecuaristas.
Crise capitalista resolvida no capitalismo?
Consumo? Aí foi que nos perdemos.
Máquina. Poder. Negociações. concessões.
Mexer em vespeiros? Nem por sonho!
Não fizemos, eles fizeram.
Não taxamos grandes fortunas,
Não cobramos dívidas formidáveis,
Não enquadramos as concessões públicas,
E mesmo assim, formos detestados,
denunciados, caluniados, apedrejados
Até por quem tinha tudo a perder.
Riria agora, se não chorasse pelo Brasil,
Dos manipulados, bestializados,
recém saídos de caverna escura e triste
bradando por mais sol, mais grama, mais calor.
Pessoas de triste figura, estes.
Levaram a democracia embora,
Não perceberam a grande armadilha,
E ainda assim, demoram a reconhecer.
E eu, que já vivi muitas das cores,
preparo minhas vestes cinza e
economizo poucas alegrias.
Frente ao descalabro revoltante
já sinto a chibata em mim e nos meus.
Os tempos já foram melhores,
quanto tempo levaremos desta vez
para ver outra vez
o dia nascer feliz?




domingo, 19 de março de 2017

Maria Regina

Regina Maria, Maria primeiro,
Guria bonita que eu conheci
Nos tempos de glória, nos Glórias da vida,
Regina amiga do fundo da sala.
O tempo que voa não tira da mente
Pessoa mimosa que nunca mais vi.
Maria Regina, não sei onde foi,
Os ventos da vida levaram a nós.
Eu fui por ali, por aqui e Regina
Voou para lá, para cá, e como eu,
Passou alegria, incerteza, tristeza,
A dor e o medo, ergueu a cabeça,
Traçou seu caminho do jeito que deu.
A última vez que encontrei com Regina,
Na beira do lago, verão sol a pino,
Estávamos mal, as duas sofridas,
Nos idos de 80, que tempo que faz!
Só lembro da imagem e do sentimento,
De poucas palavras trocadas ali.
Eu Bruxa, tu Bruxa, Que lua nos rege?
Quais são nossos céus, qual nosso cristal?
Regina, colega, relógios insanos,
De nós não levaram a força e a fé!
Me mande notícias, de ti e dos teus,
E mando daqui te dizer que vou bem!
A idade passada para mim foi bondosa,
Para ti deve ter sido boa também.
Despeço-me alegre, saudosa e querendo,
Te ver confiante, em paz e feliz!





Diáspora

Por muito tempo perseguindo sombras,
Foi só acender a luz,
Que elas foram embora.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Perceber

... O quanto ainda não sei.
Quantos caminhos terei para trilhar,
Quantos serão os portos
Que descobrirei...

Conhecer tanto mais
Que o mundo tem para mostrar,
Formigas, folhas, pedras,
Elefantes e gotas de chuva.

Percebo a realidade prismada
Em muitos tons,
De tantas formas e sons e sabores,
Percebo que nada é o que se mostra,
Não como enxerga o olho sem lente,
Nada é exatamente como
Imaginamos ser o que se vê.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Sempre.

Não foram só pancadas de chuva.
Um tornado de proporções
Pinkfloydianas
Tomou minha noite,
Tornando-a
Melodiosa.
Eternidades são raras,
E mais raras ainda
Músicas eternas,
Plenamente belas,
Aquelas
Atemporais, perenes
E insubstituíveis.


terça-feira, 7 de março de 2017

Estraño a mi calle (saudades de minha rua)



Extraño a mi calle.
La señorita de los Suspiros.
Me he dejado allí las lágrimas ya no tienen?
Extraño a mi calle sinuosa.
mi amor olvidado.
Los años pasan, y no estoy de nuevo en mi calle.
Pisando las rocas dentadas,
El daño de los pies en el camino,
Y si nunca olvidé mi calle,
Es a causa de allí, se quedó.

Saudades de minha rua.
Saudades dos suspiros.
Terei eu lá deixado as lágrimas que já não tenho?
Saudades de minha rua sinuosa.
de meus amores esquecidos.
Os anos passam, e lá estou outra vez em minha rua.
Pisando as pedras irregulares,
Machucando meus pés no caminho,
E se nunca esqueci minha rua,
É porque de lá, nunca saí.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Reposição

Pedaços de lembranças
desaparecem e levam seus rastros.
Espaço vital
para as novas imagens
e cores e cheiros e
lembranças mais bonitas.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Fuga

Presas tem pressa em partir.
Armadilhas, dentes ou armas,
Todas elas e quaisquer umas
Tem que ser vencidas com rapidez,
Antes que as vítimas acostumem
Com a dor,
Prisão,
Amarras e servidão.
Presas inconformadas
São vitoriosas,
Mesmo que deixem nas redes
pedaços de si.

domingo, 11 de setembro de 2016

Em Casa

Sabiás, mosquitos, salsinha e beija-flor.
Cachorros indisciplinados,
Céu que mostra estrelas,
Lua grandona.
Sol nascendo pelo oeste,
Tão assanhado que corta o sono,
Ar mais leve.
Vizinhos solidários e curiosos,
Roupa seca em varais,
Minhocas na terra
E galos insones.
Bom de viver neste pedacinho
de cidade esquecida
Pela cidade
ensandecida e fumarenta.