terça-feira, 27 de novembro de 2012

Fuga

De passo em passo,
Prisioneira de paço remoto,
Reformo a fuga
Em labirintos escuros,
Estreitos,
Mal-cheirosos.
Passos apressados
E lúgubres
Roubados
De fugas esquecidas
E incertas,
Revividas
No sempre
Da memória trancafiada
Pelos medos
E rastros passados
Mas jamais perdoados.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Resistência

Tropeçar no lugar-comum
E declarar-me dividida
Apesar da obviedade tacanha
É inevitável.
A crise que me ronda, soturna,
Desde há tempos,
Anuncia-se.
As dúvidas que protelei,
As respostas que evitei,
Espreitam cada desapontamento.
Tentam esmiuçar cada pensamento.
Nestes tempos que imaginei
Como de indecisão, porém,
Não notei o quanto
Matei meus medos,
O como tornei-me serena,
O tanto que blindei-me
De pesares e melindres.
Tanto que medo e crise
Apenas rondam,
Como ventos de maus presságios,
Que espanto com fúria e força
De quem se determinou a viver.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Rejunte

Caí no chão, quebrei,
Na verdade, espatifei-me em cacos.
O que restou de mim arrastou-se,
Juntou os pedacinhos,
E, como continuava a chorar, 
Usei lágrimas como cola.
Fui remontando, consertando,
Até sentir a vontade irrefreada
De vomitar uma sonora gargalhada.
Depois outras, outras.
Então senti minha alma 
Rejuntada, revivida
Bem mais esperta e sapeca.
Com toda a força
Que males e dores tem
Para nos tornar mágicos,
Audazes e astuciosos.
De quebra, a felicidade
Veio dum jeito que eu não conhecia.

 

sábado, 29 de setembro de 2012

Engano

Diziam-me, anos atrás, muitos anos atrás,
Quando a impaciência me assolava,
E  incerteza me consumia,
Que com o tempo e a idade
(ah, esta coisa que até hoje não consigo
 nem entender nem reconhecer)
Que a maturidade traria a calma,
A tranquilidade, a paciência.
Imaginava-me, horrorizada,
Na contemplação dos ponteiros
De algum relógio imaginário,
Assistindo o bailar de ponteiros,
Aguardando o cair da tarde,
O horário da novela das sete,
O sono das oito,
O despertar com o nascer do sol.
Pois o tempo passou,
Muitos anos, todos aqueles aniversários
Que jamais deixei de festejar.
Continuo impaciente, carregando incertezas,
O sono não chega antes da madrugada,
Acordar com o nascer do sol continua
a ser um suplício.
Uso relógio digital para não me irritar
com a lentidão dos ponteiros,
E quanto à formigas, bem...
Elas continuam caminhando em fila,
Mas só lembro delas quando invadem o açucareiro.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Rápida Biografia Da Madrugada

Minhas tarefas nunca foram fáceis.
Nada de bordados simétricos,
Namorados convenientes e adequados,
Nada  de destaques e láureas.
Minhas tarefas sempre foram
Maiores e bem mais ásperas.
Quebra de paradigmas,
Sutilezas descascadas,
Pontos irregulares, cores descombinadas
Para os olhares arcaicos
De mentes retilíneas e incapazes
De pisar por milímetros
Além da faixa convencionada.
Minha maior virtude sempre foi e sempre será 
O desafiar e afrontar a normalidade.
Minha inquieta curiosidade 
Minha insatisfação constituem 
A massa compacta e colorida
Que alimenta, agiganta dá vida
A mim, minha independência, capacidade,
Mas principalmente minhas lucidez e felicidade.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Farrapos

Amanhã, por aqui será feriado.
Um feriado que bate forte no orgulho gaúcho,
Lembranças montadas pela história contada
Como sempre, pelos vencedores.
Amanhã, sentiremos pulsar mais forte
O coração gaúcho.
Amanhã, recontaremos os feitos passados,
E recobriremos de glórias
As chacinas e combates
Que dizimaram índios, negros e peões.
Amanhã, como sempre, esqueceremos
De louvar os negros acossados,
Que lutaram pela sonhada liberdade,
Mas que não couberam no acordo final.
Sou gaúcha, aqui nasci,
Sangue português, índio e libanês.
Gaúcha brasileira.
Das que ama o Rio Grande do Sul,
Sua bandeira, escudo, hino e tradições.
Amanhã, além de lembrar de nossa Revolução,
De alguns poucos idealistas que sonharam com
A República Juliana, sem escravos e
Independente de Portugal,
Gostaria que fossem lembrados também
Índios, negros e peões que acreditaram
Neste sonho e por ele morreram.


domingo, 16 de setembro de 2012

Além do clima

As noites já são mais curtas,
o sol se estende e alonga,
dia após dia suas rendas
de luz.
A inconformada lua,
não bastasse a carga imposta,
nestas épocas de saliência do calor,
vê-se espremida
entre escuridão e nuvens,
gemidos de exilados
e densas dores desconhecidas.
Invernos e verões se alternam,
enquanto nós, indiferentes,
sequer notamos as mudanças
escancaradas
que vão muito além da temperatura.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Hoje e amanhã

Hoje tenho alegria, tive abraços e risos.
Hoje alimentei a satisfação.
Nadei em praia límpida, água transparente,
clima quente, sol queimando,
céu sem nuvens, areia fina e limpa.
bem perto, quiosques abarrotados
com todas as coisas que imaginei
poder imaginar querer.
Isto foi hoje.
Amanhã será outro dia.