sábado, 28 de setembro de 2013

Educação Zero

Não sou educada,
Não sou prendada.
Não gosto de arrumações simétricas e impecáveis.
Não vejo graça em fazer boa figura.
Tenho certeza que todas as pessoas arrotam.
Aprendi que o menor de meus oroblemas
é a louça na pia
ou roupa mal-dobrada.
Em compensação,
Sei de tantas coisas,
Penso tantas coisas,
Faço, e faço bem
Tantas outras tarefas,
Que esta formalidade
Que as pessoas polidas carregam
Não me fazem a menor falta.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O tempo de Entender.

O que nos foge, o que não vemos?
Quem dera soubéssemos.
Queremos a luz de alguma estrela distante,
Lembramos os dias passados
Como malabaristas,
Arriscamos os dias futuros.
Embalamos pensares
Para não sentir
Os arrepios gelados do hoje.
O que não fazemos,
Teto, paredes, cores desmaiadas.
Onde ficaram os amarelos, verdes,
Os vermelhos, o agora bem aqui, onde estamos?
De bom tamanho seria uma tempestade,
Que não as de nossa alma.
Sementes ainda podem brotar.
Riacho de água fria,
pedras, e nossos pés na água límpida.
Hoje acumulamos as benesses ignoradas.
Solidão acalentada pelo vento impiedoso
Que não se importa nem um pouco
Com os rasgos de nossa alma.
O tempo de entender sempre vem a seu tempo..

sábado, 20 de julho de 2013

Da senzala para a favela, Da favela para a rua.

Ouvindo um blues
lembrei do frio que faz lá fora.
Ouvindo um blues, deitada em minha cama,
sopa de capeleti quente,
Impossível nao pensar na rua.
Nos milhares de vítimas
Arrancadas de sua pátria
Para construir outra pátria
Onde até hoje não tem lugar,
Não são bem-vistos,
Bem-vindos.
Da senzala para a rua.
Será mesmo
Este nosso país
O país da oportunidade?
Linha da miséria? Firme, esta...
São homens, são mulheres.
Bebem, se drogam,
Cachaça esquenta, disse-me um certa vez.
E os donos da terra?
Não tem mais sua terra.
Foi tomada sua terra.
Expulsos e chacinados,
Afinal, o "progresso"
Do agronegócio precisa
De terra, pastagem, e poucos braços.
Os donos da terra tocam músicas
Sem nem saberem seu sentido.
Meninas são abusadas,
Homens mortos.
Eu, aqui estou bem.
Só doi o machucado e a consciência
De lembrar que .
Muita, muita gente na rua
Provavelmente morrerá
Do frio deste inverno por estes dias.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

B.O. da Zona das Puta

Com um murro na cama ele grita:
Acorda, muié!
Ela arregala os óio e sai pras lida da vida.
Volta quase junto com o sol,
Tanto nojo nela,
Nojo dela.
Daquele corpo machucado,
Daqueles macho que ela tem que apressar.
Tudo igual agora, os preto, os gordo,
Os grande e os alemão.

Ela dorme, e agora sou eu que grito:
Acorda, muié!
Vem pras lida da vida,
Mas de vida com gosto,
Sem soco nem tapa.
Vem que tem vida sem asco,
que de sofrida tu já dobrô tua sina.

Recorda, menina, risada com dente,
Prova prá São João escrever
Letra na bacia, casca de laranja
Broa macia e o olho espichado,
guloso, corpo ardendo e se dando
a barriga, a fome, a vergonha.

E o que quase foi ouro
Agora era barro. Era lodo,
Era a pontada parindo e depois
A pontada na alma, piedade negadaa,
China, puta, entre outras
As que vieram antes,
E as outras que chegavam.

Mas era tanta dor, tanto nojo,
Tanta raiva, tanto medo,
Que doía, doía, doía e doía
Até que um  dia ela entendeu
Que não tinha mais dor prá furar sua alma.
E foi ela que furou, não a alma - o corpo -
Para assistir o sangue escorrer,
As otra correu e ela não.
Só pegou o guri pela mão
E saiu devagar prá, quem sabe, viver.





sábado, 22 de junho de 2013

O Peso e o Medo

O peso e o medo,
Ideias forjadas em aço e algodão.
O medo do peso,
Do algodão macio,
Lucidez, me brinde
Ou não,
Ou me tome a insensatez.
Durmo,
Mas acordo com a amargura
Cruel de lembranças
Que não me permitirei,
Afagos de um amanhã,
Que nunca virá,
Por carregar com ele
O peso do aço forjado,
Lâmina fina a me perfurar
Inclusive a ilusão.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Parecenças

Sem aviso, as letrinhas miúdas do teclado
Encenam um pisca-pisca chamativo,
E meus dedos são seduzidos sem reagir.

São as palavras tomando prumo,
Lançando na água hoje turva
Das dores comuns o anzol da memória.
Mesmas dores, mesmos medos,
Horrores mascarados à espreita.
É esta a trilha em comum,

Acendi, para ti, um incenso,
Vendo a rala fumaça dançar
Brincando de desenhar coisas.
Efêmeras.
Como a fumaça e nossa dor,
Ou como quero crer que seja nossa dor.

Aparentam, por vezes, diferenças
Mínimas,
Dissolvidas ao menor rastro de lucidez.
Seremos, porventura, fortes?
Queiramos que sim. Para,
Enfim vencer tempo,
Desânimo e loucura.

Por hora, sigamos o rumo
Da lucidez, por mais amargo,
E turbulento se mostre.




Para Jean

Sem mais ou razão,
Entram em minha página os dois olhinhos escuros,
Voz vezes desfibralada de seu timbre,
Riso fácil.
Escondida a alma no tom certo,
No toque fácil e e terno,
Andorinhas astutas copiando
Acordes de seu canto.

E quando uma saudade-lonjura
acontece,
Doendo em pedaço desconhecido d'alma,
Calmamos.
Sabemos os dois,
Quase ao mesmo tempo,
O rubro entardecer
Guardado em caixinha forrada em veludo mimoso,
Esperando ansioso o tope desfeito
Encanto inesperado e imprevisível.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Fuga

De passo em passo,
Prisioneira de paço remoto,
Reformo a fuga
Em labirintos escuros,
Estreitos,
Mal-cheirosos.
Passos apressados
E lúgubres
Roubados
De fugas esquecidas
E incertas,
Revividas
No sempre
Da memória trancafiada
Pelos medos
E rastros passados
Mas jamais perdoados.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Resistência

Tropeçar no lugar-comum
E declarar-me dividida
Apesar da obviedade tacanha
É inevitável.
A crise que me ronda, soturna,
Desde há tempos,
Anuncia-se.
As dúvidas que protelei,
As respostas que evitei,
Espreitam cada desapontamento.
Tentam esmiuçar cada pensamento.
Nestes tempos que imaginei
Como de indecisão, porém,
Não notei o quanto
Matei meus medos,
O como tornei-me serena,
O tanto que blindei-me
De pesares e melindres.
Tanto que medo e crise
Apenas rondam,
Como ventos de maus presságios,
Que espanto com fúria e força
De quem se determinou a viver.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Rejunte

Caí no chão, quebrei,
Na verdade, espatifei-me em cacos.
O que restou de mim arrastou-se,
Juntou os pedacinhos,
E, como continuava a chorar, 
Usei lágrimas como cola.
Fui remontando, consertando,
Até sentir a vontade irrefreada
De vomitar uma sonora gargalhada.
Depois outras, outras.
Então senti minha alma 
Rejuntada, revivida
Bem mais esperta e sapeca.
Com toda a força
Que males e dores tem
Para nos tornar mágicos,
Audazes e astuciosos.
De quebra, a felicidade
Veio dum jeito que eu não conhecia.